29th Aug, 2007

Evoluções e crises da personalidade

A maior parte dos jogos da criança baseia-se na imitação. Ela tenta estabelecer uma identidade entre si própria e os pais, sabendo que o seu carácter se desenvolverá em função daquilo que vê e aprende com eles. Ao mesmo tempo, a transgressão das proibições permite à criança experimentar o limite dos outros e da lei, ajudando-a a conhecer os seus próprios limites. A criança atravessa diversas fases que testemunham a sua evolução no sentido da maturidade.

Por volta dos 2-3 meses esboçam os primeiros sorrisos em resposta ao aparecimento da figura humana; o recém-nascido distingue o agradável do desagradável.

Por volta dos 8 meses, juntamente com um novo interesse pela própria imagem ao espelho, manifesta a angústia perante um rosto estranho. A criança distingue as pessoas familiares das não familiares. Nesta idade, a criança sente uma grande angústia quando é separada das figuras de referência.

Por volta dos 15-18 meses, a criança aprende as primeiras palavras; diz “não” e acompanha a negação com o movimento da cabeça; “é isto, não é isto”, “é ali, não é ali” são as distinções que lhe permitem a formulação e a expressão dos primeiros juízos. Quer “fazer tudo sozinha”, de forma a desenvolver confiança em si própria.

Por volta dos 2 anos e meio, a criança atravessa uma crise de rejeição sistemática: desobedece, obstina-se e nega o consentimento a qualquer coisa que lhe seja proposta, como que para demonstrar um princípio de autonomia.
Adquire consciência de si, e esta é a primeira verdadeira expressão de autoconsciência. O sinal característico da distinção entre si e os outros é a utilização, ao falar, da primeira pessoa do singular.

Entre os 3 e os 5 anos, a criança atravessa a crise do complexo de Édipo. Segue-se um novo processo de construção da personalidade. Pode dizer-se que, no final da crise, o pai e a mãe já não são encarados apenas como pais, mas também como homem e mulher.

Por volta dos 6 anos, a criança interessa-se pelos seus semelhantes e liberta-se da influência do adulto. Pode até acontecer que a presença dos adultos seja interpretada como indesejável, ou vivida como uma intrusão. Nesta idade, as crianças começam a tomar consciência (ainda que de forma confusa) de tudo o que separa o seu próprio mundo do mundo dos adultos. Se estes últimos representavam “tudo” para elas, agora parecem mais incompreensíveis, fechados, misteriosos. É a idade da sociabilização, em que a escola desempenha um papel muito importante pois é aí que a criança identifica a sua própria realidade social.

Por volta dos 13-14 anos, surge a crise da adolescência. Condicionado pela puberdade a confrontar-se com as suas pulsões sexuais, o rapaz assume de novo uma atitude de oposição em relação à família e à sociedade. O adolescente distingue-se dos adultos pela originalidade, por vezes levada aos extremos: vestuário, higiene pessoal, linguagem, etc., tornam-se códigos de reconhecimento no seio de um grupo etário.

Passar da adolescência à idade adulta pressupõe duas etapas que se sobrepõem entre si. A primeira é a aquisição da identidade: “Quem sou?”. Todos os comportamentos e actividades do jovem adolescente são dirigidos à procura da sua identidade.
A segunda é a aquisição da intimidade, ou seja, da capacidade de viver consigo próprio. Só quando a consegue adquirir é que o adolescente se torna um adulto capaz de viver com os outros e de governar a sua própria vida.
Estas são as grandes etapas obrigatórias, através das quais um indivíduo forma a sua personalidade. A construção da personalidade é um processo interactivo e progressivo em que as atenções contínuas, a ternura e a compreensão têm um papel fundamental.
As “crises” não só são normais e saudáveis, como desejáveis para a adaptação futura à vida social do adulto.

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